quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Pólen e flores.


A borboleta (Francis Ponge)
Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como em xícaras
mal lavadas - um grande esforço se produz em terra donde as borboletas imediatamente levantam vôo.
Mas como cada lagarta teve a cabeça vendada e enegrecida, e o torso definhado pela
verdadeira explosão de onde as asas simetricamente flamejam,
A partir de então a borboleta errática não pousa mais a não ser ao acaso de seu vôo,
ou quase isso.
Mecha volante, sua chama não é contagiosa. E aliás, ela chega demasiado tarde e
apenas pode constatar as flores abertas. Não importa: comportando-se com um acendedor
de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Ela posa no alto das flores com os
trapos desajeitados que carrega e se vinga assim da longa humilhação amorfa de lagarta ao
pé dos talos.
Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala supérflua, ela
vagabundeia pelo jardim.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O que habita em mim habita em você


O tal - Ulisses Tavares

"Deuses existem vários
O teu o meu o dele
A cada um emprestamos
o que de melhor ou pior
Em nós de Deus ainda resta
Não há, pois espanto
Se nenhum Deus presta"

Excelente para recitar a primeira sexta oficial do ano.

Ah e uma dica de um lindo brinquedinho:
http://po-ex.net/

Foto: Fernando e magia Paralella.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Paradoxo da desigualdade no Brasil.


Desde a expedição Jesuíta a Vila de Jaguaripe em 1650 os habitantes e visitantes mais bem informados reconhecem que à caatinga do Alto Jiquiriçá, onde os rigores do semi-árido mostram até os dias de hoje um sertão castigado pelas estiagens, em altitudes que atingem até 1.000 metros.A aridez da região é compensada pela floresta estacional e as riquezas naturais no entorno do rio, o que atraiu muitos habitantes para região e o tornou uma das principais referências naturais.A floresta outrora com ocorrências bastantes fechadas está hoje totalmente descaracterizada pelos constantes desmatamentos e as águas outrora abundantes, parecem desaparecer a cada dia, deixando a região mais seca e menos exuberante.Há anos Os telefones públicos de Jaguaripe não funcionam a anos e os comerciantes e moradores da região sofrem com condições de limpeza precária e falta de luz. A situação socioeconômica destes Municípios é gravemente precária, com uma grande porção de sua população numa linha de pobreza que é evidenciada pelos dados censitários, que indicam que 9% dos responsáveis por domicílios não auferem nenhum rendimento e 78% têm rendimentos inferiores a dois salários mínimos.As atividades econômicas predominantes estão no campo, com uma agricultura frágil e escassamente rentável. A indústria é de pouca contribuição para o produto regional e a área de serviços ainda muito pequena. Destaca-se o crescimento do turismo nos últimos anos na região devido a seu patrimônio natural e cultural.
Os padrões de saúde e educação são baixos, sendo crítica a questão do
analfabetismo e da saúde. Com tristeza constata-se ainda,
na Bacia do Jiquiriçá, a existência de 110.000 analfabetos adultos.A bacia do rio Jiquiriçá vem sofrendo impactos ambientais de grande magnitude, sobre o solo, a vegetação, a fauna e os recursos hídricos. Pode-se considerar que seu quadro ambiental se caracteriza por um desgaste crescente dos recursos naturais, com a conseqüente deterioração de seus ecossistemas, decorrente de utilização de processos agropecuários inadequados, desmatamentos, com perda de biodiversidade, processo adiantado de erosão e perda de solos, reduzida disponibilidade de informação sobre o uso da água, instabilidade e desequilíbrio na regulação do balanço hídrico, economia extrativista, ausência de planejamento urbano e municipal, falta de infra-estrutura nos assentamentos urbanos, fragmentação da Administração Pública.
Em poucos dias mais de 15.000 pessoas impulsionadas pela proposta de “comemorar a vida, a sobrevivência da cultura alternativa e a riqueza de fazê-lo de forma poética através das artes” reuniram-se na paradisíaca Praia do Garcez localizada na região para a décima edição do Universo Paralello.
Voltamos essa semana de mais um festival, enebriadas pela riqueza de sons e diversidade que encontramos por lá com a certeza de que apesar dos pesares algo de poesia e unicidade ainda permanece nesse público psicodélico de cores tão gastas, o que muito me anima. É claro que a precária infra-estrutura foi péssima para o público que se sentiu enganado e revoltado, e talvez por algumas edições os organizadores desse festival, os heróis da resistência do trance, sintam o efeito da perda de público devido as condições submumanas de higiene que nós nos encontrávamos.Voltamos com inúmeras alergias de pele, infecções e também nos sentimos enganadas por não termos recebido nenhum retorno em termos de infra-estrutura por parte da organização da festa. Não vou discutir aqui soluções engenhosas para que aquele problema fosse revertido a tempo, pois esta ocupação deveria ter sido dos organizadores a tempo, e não foi feito. Agora só resta aos sobreviventes do perrengue como nós comemorarmos a perda de público do festival e torcer pra que fique cada vez mais vazio e quem sabe aos poucos não volte à origem da proposta. Eu continuo acreditando!Nem tão inocentemente assim, fiz uma coisa que nunca havia feito anteriormente por achar uma disputa de ego e auto afirmação tribal desnecessária: entrei em um desses fóruns de sites de música eletrônica para perceber as opiniões de calouros e veteranos sobre a batalha que foi sobreviver, aproveitar e transcender em meio aquelas precárias condições de higiene em que vivemos nesses dias.Enojada é o mínimo que posso definir o meu estado depois de ler tanta merda. Quanta gente babaca, pequena, manipulada pelas delimitações impostas pelas mídias sociais acerca da música eletrônica que ainda se amparam na crítica ao barulho do Skazi, Infected, GMS e 1200 mics pra se auto afirmarem entendedores de trance.Criticam a falta de estrutura buscando explicações conspiratórias acerca do descaso da produção neste festival reduzindo a comunidade da música eletrônica a um teatro mercenário a beira da falência. Sem falar naqueles que se denominam veteranos do trance e buscam a afirmação de sua tribo na oposição anarquista as novas idéias e aos festivais. “Isso eu não curto mais, já curti o que era bom, agora eu deixo festival para os novatos!” Tribo essa que no mínimo desconhece a história da música e o princípio básico que a renovação traz a prosperidade e resistência.Levantar a bandeira de “Eu já curti tudo que foi bom, hoje em dia é tudo lixo” É realmente tão orgástico a ponto de subverter a vontade musical? O egoísmo da disputa entre “os conhecedores da cena” nesse meio é tão latente que torna o nosso público cada dia mais ignorante e fragmentado. A onda é dizer que não somos mais “o público”.Acredito que esse pensamento pobre faz com que surjam esses delírios persecutórios que a onda dos tubarões do trance é realmente rir da cara do público sujo (ufa ainda bem que eu sou esperto e não sou “do público!”) e fedorento enquanto se banha em rios de ouro.
De forma alguma defendo a produção da festa, óbvio que rolou falta de planejamento.Ataco sem pudor a exploração da mão de obra local que trabalhou por 5 dias corrido sem banho, já falamos tanto de exploração por aqui...Mas quer saber? O cenário estrutural da festa era realmente incrível. A experiência psicodélica virando experiência real de vida, ver a galera endinheirada virar índio cagar no mato, pagar pra tomar banho para uma população que toma banho de gelo a meses, não teve preço ver o sorriso bilontra da população em capitalizar a água subvertendo as regras impostas pelos organizadores em nome do mínimo de ordem no caos, vendendo a água que eles mesmo não usam.Isso sim é psicodelia ativa. Por alguns momentos o nosso público com triste histórico usurpador foi participante da realidade local do que era pra ser apenas “mais um playground”. E na volta a realidade da tragédia em Angra e Duque de Caxias.Na enchente de Angra em 2002 meu pai e a sua família perderam tudo e resolveram abandonar a região do Perequê sob promessas da administração local que a situação das construções ilegais dos milionários seria regularizada e a população não mais sofreria tanto com as mudanças climáticas. A esperança virou lama no dia 31 de Dezembro de 2009.Os deslizamentos de terra que nos últimos dias mataram mais de 40 pessoas em Angra dos Reis, litoral sul do Rio de Janeiro, afetaram tanto os mais ricos - que trouxeram elegância e fama à cidade e a suas centenas de ilhas na década de 80 atraídos pelos recursos do petróleo e do turismo na região Os ricos ocupam os morros dali tanto quanto os pobres. Moradores denunciam que, além da condição social, o tratamento também tem sido diferente em meio à crise. Na manhã deste sábado (2) as equipes de resgate localizaram mais corpos na região do deslizamento que atingiu a pousada Sankay, na praia do Bananal, em Ilha Grande, distrito de Angra dos Reis. Com isso, o número de mortos na área, onde os trabalhos não pararam desde o incidente da madrugada de ontem, avançou para 28.
Já no morro da Carioca, parte pobre da área continental da cidade, 13 mortos foram encontrados. Ali, no entanto, os trabalhos foram interrompidos durante a noite e retomados na manhã deste sábado. Apesar das críticas dos moradores, o Corpo de Bombeiros informou que interrompeu as buscas por conta de risco de novos deslizamentos na região ocupada principalmente por migrantes atraídos por recursos do petróleo e do turismo. Além do sofrimento de verem todos os seus bens virar lama e reconhecer entes queridos no IML a população ainda tem que lidar com um tratamento extremamente diferenciado no resgate de pobres e ricos.
Mudando não tanto de assunto,hoje nossa família está de luto pela desgraça dos que nasceram pretos nesse país hipócrita e miserável.A nossa justiça não tem espaço para avaliar pessoas dignas e puras, sobrou pra gente neste início de ano a perplexidade da escória social em que vivemos. Com coração estraçalhado eu torço com todas as minhas forças, como mamãe se envergonharia se soubesse, que sejam punidos com a justiça da malandragem (pq na divina ta difícil de acreditar) todos os mentirosos e aproveitadores que de alguma forma compactuaram com a situação suja e criminosa a que me refiro e da qual só quem ta junto sabe.E que permaneça assim.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Antes arte do que tarde.


BEM CABE UMA PROFECIA...

"Já faz tempo pacas
Que eu não vinha aqui cantar no festival
Eu não vou ganhar, quem sabe até eu vou perder ou empatar

Nós não estamos nem aí
Nós queremos é piar
Nós estamos é aqui
E sua mãe onde é que está?

Mande um abraço pra velha
Diga pra ela se tratar

Você pensa que cachaça é água
Mas cachaça é água não
É não

Você pensa que eu estou brincando
Mas brincando eu não estou não
Estou não
Estou não

Imagine um festival
Sem caretas e no sol
Imagine um festival com a sua mãe e o Juvenal"

Ao tempo que o som psicodélico do minimoog e melotron e as pioneiras experiências dos roqueiros da cantareira com lsd anunciavam uma nova era musical a erudição e caretice dos festvais cerrava os juris em uma cortina de ferro para defender o moralismo musical.
Quem diria a herança da liberdade conquistada (ou emancipação rs) sobraria pra nós.

Em 72 o grupo lança “Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets”, que trouxe ainda problemas com a censura na faixa “Cabeludos Patriotas”. Eles são obrigados a trocar o nome da música e a letra (no mesmo álbum encontra-se a clássica “Balada do Louco”). No segundo semestre do mesmo ano lançam “Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida”. Ainda no mesmo ano (72) participam do último Festival Internacional da Canção, que estava em sua sétima edição, com a música “Mande um Abraço Pra Velha”.
Com vaias exorbitantes o grupo sai do palco com poucas esperanças (apesar de aparentarem hostilidade cada vez maior as questões internas do país) mas haviam plantado raízes sólidas na cultura musical do país e do mundo. A música elétrica dos Mutantes daria lugar decadas depois a um legado imensurável, uma revolução cultural e musical condizente com tempos em que a esperança parece ainda mais distante, a música eletônica.

Bahia here wee goo!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Dúvidas sexuais vista sob a ótica judicial

DIREITO PENAL - PERTINENTES QUESTÕES DE ÂMBITO JURÍDICO

Para a igreja, a pílula do dia seguinte já é aborto.
Então, surgem algumas dúvidas:

A masturbação masculina é homicídio prematuro ou premeditado?
E o sexo oral? Será canibalismo?
Podemos considerar o coito interrompido como abandono de menor?
E o que dizer do preservativo? Será homicídio por sufocamento?




"Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente, pela mesma razão." (Eça de Queirós)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vazamento de 30 mil litros de urânio concentrado nas águas da Bahia.


Moradores denunciam vazamento de 30 mil litros de concentrado de urânio em Caetité (BA).
De acordo com denúncias encaminhadas ao Greenpeace, 30 mil litros de concentrado de urânio podem ter contaminado solo e água dos arredores da mina
Moradores de Caetité (BA) - onde está situada a mina de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), que abastece as usinas Angra I e II - procuraram o Greenpeace ontem (9/11) para denunciar o vazamento de 30 mil litros de concentrado de urânio. De acordo com informações levantadas pela própria comunidade, o vazamento teria atingido 200 metros de profundidade e pode ter contaminado rios e lençóis freáticos. A operação da mina, ainda segundo os moradores, está suspensa.

Procurada pelo Greenpeace, a assessoria de comunicação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), órgão governamental responsável pela fiscalização das atividades nucleares no país, disse que o vazamento aconteceu no dia 28 de outubro. A assessoria, no entanto, não informou detalhes sobre os impactos e as medidas que serão tomadas. A INB não quis se pronunciar.

“Como nos vazamentos anteriores, esse acidente expõe a fragilidade da segurança nuclear e a falta de transparência dessa indústria. O acidente aconteceu há 13 dias e até agora ainda não há uma posição oficial da INB e da CNEN”, diz André Amaral, coordenador da campanha de energia nuclear do Greenpeace. “A população ainda não sabe a extensão da contaminação do solo, da água e quais os riscos para os moradores da redondeza.”

Essa falta de transparência vem se repetindo em todos os casos de vazamento e outros assuntos relacionados à produção de energia nuclear. No ano passado, o Greenpeace denunciou a contaminação da água de poços localizados em propriedades rurais no entorno da mina de Caetité. Até agora, não foram feitas análises complexas da água na zona de influência da mina e a população continua sem saber a qualidade da água que bebe.

PRAGA DE BAHIANO

"Vamos bater os tambores
Balançar as cadeiras
Sacudir nossos pandeiros
Que os dedos jamais foram feitos
Pra contar dinheiro
Pra apertar gatilho

Juntos,juntos
Joguemos juntos
Uma praga de baiano

Para que tudo de novo
Vire tudo ao contrário
O pobre compre fiado
E o rico pague adiantado"

Adoro as profecias dos Novos Bahianos e Mutantes...Bruxaria da boa que antecipava o futuro.

Há só pra pontuar entre os diversos riscos devido ao impacto ambiental a ingestão contínua de urânio pode causar diversos danos à saúde, tais como a ocorrência de câncer e problemas nos rins.

Nem sempre se vê Mágica no absurdo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A nossa Carmen Miranda


O ENCANTO ACONTECE

Carmen Miranda. A Pequena Notável. The Brazilian Bombshell. Nome mágico. Mito. Hoje, apenas uma lembrança. Mas lembrança em tudo que nos cerca. Sua influência é sentida não só na música popular brasileira, como em outros ritmos do resto do mundo. A moda lançada por ela dos turbantes, dos sapatos de plataforma, das coloridas jóias de fantasia (os célebres balangandãs), coberta de plumas e paetê, mas de barriga de fora — tudo isso é hoje copiado pela juventude feminina e pelos gays e travestis, que sequer a conheceram, pois a maioria nem era nascida quando Carmen morreu, em 5 de agosto de 1955. Ainda recentemente, a festejada cantora de rock, Madonna, confessou que suas roupas exóticas foram inspiradas em Carmen Miranda. Quem foi, afinal, essa artista tão diferente, tão revolucionária para a sua época e até para a atual? Na verdade, nem era brasileira de nascimento. Como Carlos Gardel que, embora francês, tornou-se o rei do tango argentino, a nossa maior sambista nasceu em Portugal, na aldeia de Marco de Canavezes, perto do Porto, no dia 9 de fevereiro de 1909. Vinda para o Brasil ainda bebê (um ano de idade), Maria do Carmo Miranda da Cunha (seu verdadeiro nome) foi aluna de um colégio de freiras em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, mas não completou sequer o curso ginasial porque, por necessidade financeira da família (o pai, barbeiro; a mãe, servindo refeições em uma pensão), a menina precisou começar a trabalhar muito cedo, primeiro vendendo gravatas, depois, como balconista de uma loja de chapéus, onde aprendeu a bolar seus futuros adornos da cabeça. Já, então, fora rebatizada como Carmen por um tio que a achava tão exuberante como a heroína da ópera de Bizet e não se conformava com o pacato nome Maria do Carmo. Descoberta pelo compositor e violonista baiano ("sempre os baianos na minha carreira, terminando com o Caimmy!" Josué de Barros, Carmen Miranda gravou três discos, sem grande repercussão, até atingir o sucesso total com a música de Joubert de Carvalho, Pra Você Gostar de Mim, que passou a ser conhecida como Taí. Lançado em janeiro de 1930, esse disco bateu todos os recordes da época, vendendo 35.000 exemplares em um mês Depois disso, nunca mais Carmen Miranda deixou de brilhar. Fazia sucesso não só no Brasil — com gravações e shows ao vivo — como na Argentina) e Uruguai, tornando-se a estrelíssima do "show business" sul-americano nos moldes internacionais impostos pelos americanos do norte, em Hollywood e na Broadway. Era inevitável, portanto, que viesse a conquistar também aquele tipo de público tão exigente. Quando os artistas hollywoodianos Tyrone Power e Sonja Henie a viram se exibindo no Cassino da Urca, já com a primeira fantasia de baiana idealizada por ela própria, ficaram tão encantados que a recomendaram ao empresário Lee Schubert, que não hesitou em contratá-la para ser uma das principais intérpretes da revista musical Streets of Paris, montada no Broadhurst Theatre, em plena Broadway), também com a dupla cômica Abbott & Costello e o cantor francês Jean Sablon. A figura — já carismática — de Carmen Miranda tomou de assalto o público nova-iorquino, que nunca havia visto algo igual: uma exuberante criatura, exoticamente vestida, "cantando" com as mãos, com os olhos, com os pés e com os quadris, pois ninguém entendia suas palavras em português (ela ainda não falava inglês) e, já naquela época, foi considerada "a rainha da comunicação internacional". As lojas da luxuosa Quinta Avenida substituíram as criações de Dior e Chanel pelas fantasias de baiana de Carmen, seus turbantes, sapatos e balangandãs, com bons "royalties" para a cantora brasileira, já, então, carinhosamente apelidada pela imprensa nova-iorquina de "The Brazilian Bombshell"). Ao contrário de diversas traduções, "bombshell" não quer dizer "bomba" em português — na gíria americana, "bombshell" significa uma "explosão", mas no sentido de uma grande surpresa — então, a tradução certa seria "A Grande Surpresa Brasileira" ou "A Explosão Brasileira". No Brasil, anos antes, recebera outro apelido, A Pequena Notável, que lhe fora dado pelo locutor César Ladeira, da extinta Mayrink Veiga, e que pegou de tal maneira, que ela passou a ser assim apresentada nos seus shows.


DE "PEQUENA NOTÁVEL" A "BRAZILIAN BOMBSHELL"
Algumas pessoas mal informadas disseram e dizem até hoje que Carmen Miranda foi para os Estados Unidos porque existia uma política de Boa Vizinhança entre o Presidente Roosevelt e Getúlio Vargas, inclusive que a pequena notável fora patrocinada por este último para representar o Brasil na Feira Mundial de Nova lorque porque era sua amante. Não é verdade. Carmen foi de navio (não havia passagens de avião por ser época de tensão pré-guerra), com passagem paga pelo empresário Lee Schubert. Mas, como o empresário americano não concordou em levar seus acompanhantes (o Bando da Lua) e a brasileiríssima Carmen não aceitava músicos estrangeiros para tocarem "o seu samba", ela então, recorreu ao Ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, e pediu-lhe ajuda para os rapazes. Como sempre acontece no Governo com relação aos artistas, o Itamarati, na base da economia, concordou em pagar apenas as passagens de três membros do Bando da Lua, com a condição de Carmen apresentar-se com eles no Pavilhão Brasileiro da Feira Mundial de Nova Iorque. Não querendo fazer nada "pela metade", Carmen pagou, do seu bolso, as outras três passagens, e embarcou com o grupo completo. Então, não foi a política de Boa Vizinhança a responsável pelo sucesso dela nos States e, muito menos, o desejo de Roosevelt de querer agradar o Brasil na época, como alegam os falsos críticos. Afinal, a pergunta é: desde quando, até os dias de hoje, os Estados Unidos fizeram questão de badalar um país subdesenvolvido como o Brasil? Era inevitável que a Brazilian Bombshell terminasse como estrela em Hollywood, justamente na época gloriosa dos filmes musicais. Como não pudesse abandonar os espetáculos diários de Ruas de Paris na Broadway, a 2Oth. Century-Fox abriu uma exceção para ela (um precedente na história de Hollywood): enviou a Nova Iorque uma equipe de técnicos com o diretor Irving Cummings para filmar alguns números seus especialmente para o cinema, que foram encaixados no filme Down Argentine Way (Serenata Tropical), com os então popularíssimos Betty Grabie e Don Ameche). O filme bateu recordes de bilheteria, noventa por cento por causa da presença de Carmen que, então, ficou famosa no mundo inteiro. Da Pequena Notável, cantora de rádio do Brasil, restou apenas a saudade. — No seu camarim, no Broadhurst Theatre, ainda atordoada com o sucesso internacional, a Brazilian Bombshell recebia cumprimentos de celebridades do mundo da tela que tanto admirara nos filmes e que nunca sonhara conhecer pessoalmente, muito menos, tê-los como seus fãs: Robert Taylor, Barbara Stanwick, Judy Garland) , Errol Flynn, Dorothy Lamour, Mickey Rooney, David Niven, Lana Turner, Norma Shearer e até a exclusiva Greta Garbo, que "saiu da toca" para ver o que era a Explosão Brasileira. Certa vez, comentando este fato com Carmen, comparei-o ao meu próprio caso: vir a conhecê-la pessoalmente e, ainda, me tornar sua melhor amiga — ela, que fora meu ídolo de infância. Carmen exibiu aqueles dentes perfeitos no clássico e brejeiro sorriso e me deu um grande beijo, como se eu estivesse lhe fazendo um favor em admirá-la. Era assim modesta, um ser humano maravilhoso, embora tivesse noção do seu valor e se apresentasse com o pique de uma verdadeira estrela.



UMA DECEPÇÃO COM O BRASIL
Portuguesa de nascimento, brasileira de coração, Carmen Miranda jamais se naturalizou americana, apesar dos dezesseis anos vividos como imigrante nos Estados Unidos e casada com um cidadão de lá. Mas, nem por isso, foi bem compreendida pelos brasileiros. Após o sucesso na Broadway com Streets of Paris e, em Hollywood (e resto do Mundo) com o filme Serenata Tropical, após ter sido convidada de honra na Casa Branca, em Washington, para cantar no sétimo aniversário de Franklin Roosevelt como Presidente dos Estados Unidos (como Getúlio, ele também era seu fã), Carmen voltou ao Brasil para prestar contas de legítima Embaixatriz do Samba nos States. Desceu do navio SS Argentina no cais da Praça Mauá no Rio de Janeiro, vestida com um tailleur em camurça verde-amarela e foi recebida triunfalmente pelo povo, desfilando em carro aberto pela Avenida Rio Branco, coberta de flores, serpentinas e confetes. Mas a suposta "alta sociedade" carioca esnobou-a: quando Carmen, a Pequena Notável, a Brazilian Bombshell, apresentou-se novamente no Cassino da Urca — agora, já estrela internacional sofisticadíssima, no esplendor das novas fantasias de baiana estilizadas — a "carioca society" aplaudiu-a friamente, de uma forma que, em outro ambiente, teria sido o equivalente a uma vaia. Motivo: no seu entusiasmo em mostrar o que havia aprendido "lá fora", a ingênua Carmen - que nunca foi apelativa - cantou algumas músicas em inglês, como havia feito pouco antes nos Estados Unidos, sob enormes aplausos. Foi o suficiente para que a acusassem de ter-se americanizado. No dia seguinte, triste e amargurada com a injustiça daquele povo que tanto amava, a pequena notável encomendou aos compositores Vicente Paiva e Luiz Peixoto o samba Disseram Que Voltei Americanizada, que resultou em um verdadeiro auto-retrato da cantora. Essa mágoa com o Brasil perseguiu-a durante anos e uma reportagem publicada pelo jornalista-compositor David Nasser (que desfrutou da hospitalidade dela na mansão de 616 North Bedford Drive, em Beverly Hills), intitulada "Carmen, Volte Para os Seus Bugres", cimentou a melancolia e o complexo de que os brasileiros não gostavam mais dela. Esquecia-se (e não adiantava falarmos!) de que era apenas uma minoria, mas, sensível como era, queria ser amada por todos. Só voltaria a perder esse complexo ao voltar ao Brasil, quase no fim da sua curta vida, em 1954 ("empurrada" pela dedicada irmã, Aurora), quando os brasileiros se redimiram de todas as injustiças e lhe prestaram as homenagens que merecia.
Desde o início de sua carreira americana, Carmen fez uso de barbitúricos para poder dar conta de uma agenda extenuante. Adquiria as drogas com receitas médicas pois, na época, elas eram receitadas pelos médicos sem muitas preocupações com efeitos colaterais. Nos Estados Unidos, tornou-se dependente de vários outros remédios, tanto estimulantes quanto calmantes. Por ser também usuária de tabaco e álcool, o efeito das drogas foi potencializado. Por conta do uso cada vez mais freqüente, Carmen desenvolveu uma série de sintomas característicos do uso de drogas, mas não percebia os efeitos deletérios, que foram erroneamente diagnosticados como estafa por médicos americanos.
Em 3 de dezembro de 1954, Carmen retornou ao Brasil após uma ausência de 14 anos. Seu médico brasileiro constatou a dependência química e tentou desintoxicá-la. Ficou quatro meses internada em tratamento numa suíte do hotel Copacabana Palace. Carmen melhorou, embora não tenha abandonado completamente drogas, álcool e cigarro. Os exames realizados no Brasil não constataram alterações de freqüência cardíaca.
Ligeiramente recuperada, retornou para os Estados Unidos em 4 de abril de 1955. Imediatamente começou com as apresentações. Fez uma turnê por Cuba e Las Vegas entre os meses de maio e agosto e voltou a usar barbitúricos.
No início de agosto, Carmen gravou uma participação especial no programa televisivo do comediante Jimmy Durante. Durante um número de dança, sofreu um ligeiro desmaio, desequilibrou-se e foi amparada por Durante. Recuperou-se e terminou o número. Na mesma noite, recebeu amigos em sua residência em Beverly Hills, à Bedford Drive, 616. Por volta das duas da manhã, após beber e cantar algumas canções para os amigos presentes, Carmen subiu para seu quarto para dormir. Acendeu um cigarro, vestiu um robe, retirou a maquiagem e caminhou em direção à cama com um pequeno espelho à mão. Um colapso cardíaco fulminante a derrubou morta sobre o chão. Seu corpo foi encontrado pela empregada na mesma noite. Tinha 46 anos.
Aurora Miranda, sua irmã, recebeu na mesma madrugada um telefonema do marido de Carmen Miranda avisando sobre o falecimento. Aurora Miranda passou então a notícia para as emissoras de rádio e jornais. Heron Domingues, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, foi o primeiro a noticiar a morte de Carmen Miranda em edição extraordinária do Repórter Esso.
Em 12 de agosto de 1955, seu corpo embalsamado desembarcou de um avião no Rio de Janeiro. Sessenta mil pessoas compareceram ao seu velório realizado no saguão da Câmara Municipal da então capital federal. O cortejo fúnebre até o Cemitério São João Batista foi acompanhado por cerca de meio milhão de pessoas que cantavam esporadicamente, em surdina, “Taí”, um de seus maiores sucessos.
Tantos anos depois de sua morte -em Beverly Hills, aos 46 anos, em 1955-, as pessoas guardaram mais a memória da Carmen internacional do que a da carioca e brasileira. E, só agora, no ano de seu centenário de nascimento, estamos repatriando a Carmen do samba e do Carnaval, que imprimiu a bossa na música popular brasileira e lançou compositores como Assis Valente, Synval Silva e Dorival Caymmi.

Por sorte, muitos endereços onde Carmen morou, trabalhou e namorou na Cidade Maravilhosa continuam de pé.Segue o link para acompanharmos em ordem cronológica.
*O texto acima é inspirado no texto de Ruy Castro que acompanha o link.*

http://carmen.miranda.nom.br/passos.html
Imagem: Will Murai.